Silverio Nery atuou como presidente da CBME desde a fundação da entidade (2004) até 2014, lutando pelo montanhismo brasileiro como poucos e de forma voluntária. A CBME e o montanhismo brasileiro têm muito a agradecer por sua dedicação e visão de liderar o esporte organizado durante esse tempo.
Como parte das comemorações dos 15 anos da CBME, fizemos uma entrevista com ele e aqui compartilhamos com vocês.
P. Como foi a ideia de criar a CBME?
R. Foi uma longa história que vou tentar resumir aqui. Em 1999 eu acompanhei o fórum Interclubes no Rio que acabou resultando na fundação da FEMERJ. Vale lembrar que se não fosse pelas listas de discussão na internet, na época via e-mail, nada disso teria acontecido. Houve então, em meados de 2000 em São Paulo, uma ameaça de “super-grampeação” no cume do Bauzinho, para pratica de rapel. Isso revoltou os escaladores locais e resultou em discussões frenéticas pela Internet. Naquele momento “caiu a ficha” para muitos montanhistas de São Paulo, que perceberam a necessidade de entidades representativas oficiais. Participei então de um grupo de discussões e reuniões com objetivo de fundar a FEMESP, o que aconteceu em 07/04/2002, e da qual fui o primeiro Presidente. Os motivos e anseios que me levaram a aceitar o desafio de presidir a FEMESP e depois a CBME eram mais ou menos os mesmos. O número de praticantes de Montanhismo, de uma forma bem geral, envolvendo trekking, escalada, canyoning, rapel e derivados aumentou consideravelmente no Brasil a partir dos anos 2000, o que trouxe riscos preocupantes para o meio ambiente e para os próprios montanhistas, como contaminação das nascentes, excessos na colocação de proteções fixas em paredões rochosos, fechamento de trilhas em parques públicos e em áreas particulares, proliferação de empresas e indivíduos oferecendo cursos e serviços de guia para atividades de risco sem qualquer restrição ou controle, proliferação de projetos de lei visando regulamentar nossa atividade sem qualquer critério, e por aí vai. Na época havia um vácuo muito grande que acabou sendo preenchido por instituições que passaram a regulamentar as atividades das pessoas em ambiente de montanha, as Federações Estaduais de Montanhismo e a CBME. A CBME para mim foi uma extensão do trabalho que eu já vinha realizando na FEMESP, só que em âmbito nacional. Fundamos a CBME inicialmente para ter um “chapéu” mais representativo na hora em que precisássemos conversar com um Ministério ou o COB (Comitê Olímpico Brasileiro), por exemplo. Me lembro claramente do Bernardo Collares, presidente da FEMERJ, me fazendo a “proposta indecente”: “se você topar ser o presidente eu topo ser o vice!” Bom, isso foi em 2003 e a CBME foi oficialmente fundada em julho de 2004, há 15 anos atrás
P. Quais foram as principais causas da CBME durante o seu mandato?

R. Acredito que o melhor que fizemos foi ocupar aquele espaço vazio e mostrar aos órgãos públicos e agentes privados que o montanhismo brasileiro tinha uma representação forte e unida e torno de algumas causas bem consistentes. Demos início a vários processos importantes, como os Encontros de Parques de Montanha (junto com o ICMBio), os Campeonatos Brasileiros de Escalada oficiais, o Programa Adote uma Montanha, a auto-regulamentação da atividade, com estabelecimento de currículos mínimos para cursos básicos e formação de guias de montanha, entre outros. Trabalhamos ativamente para evitar que o Montanhismo fosse regulamentado como atividade turística pelo Ministério do Turismo, na época uma grande batalha, da qual participaram também o surf, o skate e o parapente. Graças aos contatos no Ministério do Esporte, participei da Comissão de Esporte de Aventura, um comitê técnico que criou as definições oficiais de Esporte de Aventura e Esporte Radical, um marco importante para o reconhecimento do montanhismo como esporte (idem para o surfe, parapente e outras atividades ao ar livre não essencialmente competitivas). Também por essa via fui convidado a participar de audiências públicas sobre Projetos de Lei no Senado e na Câmara Federal que visavam regulamentar, de forma totalmente inadequada, os esportes “radicais”, como constava do texto dos projetos. Graças à nossa mobilização e também de outras entidades (parapente, paraquedismo, surfe, skate), conseguimos derrubar esse projetos. Em resumo, sempre trabalhamos em 3 frentes: ambiental, desportiva e auto-regulamentação da atividade. Como estávamos pintando uma tela praticamente em branco, quase tudo que foi feito acabou servindo de alicerce para a continuidade desses trabalhos. Alguns floresceram mais, outros menos, mas todos valeram à pena.
P. Conte-nos sobre das principais vitórias e dos grandes desafios.
R. Uma grande vitória acredito que foi o reconhecimento, pelo Ministério do Esporte, Ministério do Meio Ambiente e ICMBio da presença oficial do montanhismo no cenário brasileiro. Como mencionei atrás, a CBME foi convidada a participar de audiências públicas para discutir projetos de lei que pretendiam regulamentar nossa atividade e participamos da Comissão do Esporte de Aventura, do Ministério do Esporte. A CBME se filiou à UIAA, entidade mundial do montanhismo e escalada em 2004/2005 e logo em seguida foi um dos membros fundadores do IFSC, a entidade mundial da escalada de competição, na verdade uma dissidência da UIAA. Durante 10 anos a CBME foi responsável pela participação oficial de atletas brasileiros em competições internacionais do mais alto nível. Nessa área tivemos, a meu ver um marco importante que foi o campeonato brasileiro de 2005, cuja final teve imenso público na Casa de Pedra em São Paulo, com repercussão na mídia impressa e em alguns programas esportivos na TV aberta, coisa rara naquela época e ainda hoje. Essas competições revelaram muitos jovens talentos, alguns dos quais continuam ativos e fortes no cenário da escalada, como Felipe Camargo, Cesar Grosso e Thais Makino.
.Também permitiram que atletas com mais tempo de atividade alcançassem sua consagração no cenário nacional, caso da Janine Cardoso e do André Berezoski. Em outra frente, iniciamos a elaboração de um conjunto de diretrizes visando estruturar e homogeneizar a estrutura dos cursos de formação de montanhistas em caráter nacional. A meu ver, nossa maior vitória foi a realização da I Semana Brasileira de Montanhismo, em 2012, quando ocorreu a afirmação e a consolidação de todo o trabalho anteriormente realizado. Ali conseguimos reunir um público enorme oriundo de todos os cantos do país e discutimos temas fundamentais para nossa atividade. Foi um grande congraçamento e um marco que sempre será lembrado na história do Montanhismo Brasileiro. Meu maior desafio foi manter a escalada de competição no âmbito da CBME. Por fim, essa foi uma batalha que perdemos, por vários motivos, entre os quais destaco a posição política do IFSC, que incentivou fortemente a formação de um grupo dissidente, a exemplo do que já havia ocorrido na criação do próprio IFSC.
P. O montanhismo mudou nos últimos anos. Como você enxerga essa mudança?

R. Eu vejo com nostalgia e até um pouco de melancolia a perda do romantismo que sempre foi um forte atrativo pessoal para mim no montanhismo. Parte desse meu sentimento deve ter a ver com a idade, reconheço, mas não deixa de ser uma perda. A aventura, como praticada pelos nossos antepassados, que buscavam terreno e desafios desconhecidos está aos poucos desaparecendo neste planeta. A sensação de partir para uma trilha ou escalada pouco conhecida com informações rabiscadas ou datilografadas em folhas de papel, mapas topográficos, bússola, quase nada disso faz parte do cardápio do montanhista hoje em dia. Tudo está mapeado, existem tracklogs para os trajetos mais remotos possíveis. Na tela do computador e do smartphone, o cume do Everest parece tão acessível quanto um restaurante ou uma cidade de veraneio, basta seguir o GPS… Outra grande mudança ainda em curso é a participação da escalada de competição nos jogos olímpicos de verão, o que irá trazer maior visibilidade para a escalada, tanto indoor quanto outdoor, com maior quantidade de praticantes a médio prazo. Como sempre, isso trará maior pressão para o meio ambiente e exigirá atuação da CBME e Federações em busca do uso mais racional dos espaços disponíveis, cada vez mais congestionados Por outro lado, a pratica do montanhismo e da escalada no Brasil deixou de ser vista como uma coisa exótica, praticada por alguns malucos. Hoje somos parte integrante e reconhecida na sociedade civil o que pode facilitar a atuação da CBME e Federações em vários aspectos
P. E o montanhismo organizado do futuro? O que enxerga como desafio e oportunidade?
R. O papel dos Clubes de Montanhismo, que sempre foram o suporte basilar das Federações e da CBME vem perdendo relevância. Creio que terão que se reinventar e passar a utilizar cada vez mais tecnologias e aplicativos para se manterem atualizados e poderem continuar sendo os repositórios do conhecimento e da cultura do montanhismo. Esse me parece um grande desafio para o qual não tenho resposta, acredito que os montanhistas mais jovens e antenados irão encontrar esses novos caminhos. Outra frente permanente de batalha é a conservação do meio ambiente natural, sem o qual as atividades outdoor de aventura perderão seu espaço de realização. As novas gerações certamente se adaptarão a esse novo ambiente cada vez mais urbanizado, mapeado e controlado, certamente haverá perdas, talvez alguns ganhos. Quem viver verá.